Era uma vez … Os Contos de Fada

PODCAST: Era uma vez… Os Contos de Fada – Música Incidental Medieva

Não precisa ser criança para se encantar com os contos de fada, é só ouvir o “Era uma vez” para nos transportarmos para um mundo repleto de elfos, fadas, ogros, reis e rainhas, dragões, bruxas e, é claro, príncipes e princesas.

Personagens como Chapeuzinho Vermelho, A Pequena Sereia, Cinderela, Branca de Neve entre outros começaram a borbulhar em nosso imaginário.

Contos de fada
Contos de Fada: Ilustração para o Conto a Bela e a Fera de Ferdinand Nigg/Crédito: Wikimedia Commons

Origens

O termo fada vem do latim Fatum, que significa destino ou fatalidade. Suas origens remontam a Idade Média, respectivamente ao povo celta, porém alguns contos como Cinderela possui uma origem ainda mais remota e alguns dão a autoria do conto ao grego Strabo no século I a.C.

Deu para perceber que as origens dos contos de fadas são realmente difusas, no entanto, o que podemos constatar é que desde que exista a linguagem, as civilizações contam e recontam histórias como nossos parentes mais distantes, seja na caverna de Lascaux – famosos pelas pinturas rupestres – na França ou sentados ao redor de uma fogueira.

Narrativas de morte, aventura, luta, magia e renascimento são inquietações que remontam milênios e que falam direto com o seu leitor.

Os contos de fadas evoluíram de história seculares , onde o personagem mais desajustado pode ter sua redenção. Existem fontes que nos levam a textos de origem oriental do século VII d. C, como por exemplo o da China em que começa assim:

Era uma vez…

“Era uma vez, na China, um homem que morava em uma caverna e que se casou com duas mulheres e que com cada uma delas teve uma filha. Um dia, uma das esposas morre.

A pequena órfã, Yen Xian é criada pela madrasta, a outra esposa, uma mulher má e invejosa que a odiava por ser mais bela e mais prendada que sua própria filha. Ye Xian começou a ser tratada como empregada e a ela cabiam sempre a piores tarefas e seu único amigo era um peixe dourado que vivia no lago perto de casa.

Para garantir que Ye Xian não conhecesse alegrias, certo dia ao saber da existência do peixe, resolve assá-lo. Inconsolável, Ye Xian pega os ossinhos do amigo que estavam enterrados debaixo de um monte de esterco (eca!) e os guarda, pois um feiticeiro a avisara que ele era mágico e atendia pedidos.

Chega o dia do Festival da Primavera, uma festa à qual iam todas as moças e rapazes da região. Ye Xian ficou animada para ir, porém foi proibida de ir com medo de que todos se apaixonassem por ela e ninguém olhasse para a sua filha. Desolada, a menina pede ajuda aos ossinhos e como em um passe de mágica, os restos mortais do amigo a cobrem com um maravilhoso vestido azul e um glamoroso manto de penas. Os minúsculos pezinhos de Ye Xian receberam os sapatinhos mais lindos vistos feitos de ouro”.

Se até agora ao ler pensou em Cinderela, não foi mera coincidência… Narrativas são recontadas com variações em diversas culturas ao redor do mundo e o final da história já da para imaginar e “eles viveram felizes para sempre”.

Contos de Fada para maiores

O que as pessoas não sabem é que inicialmente os contos de fadas não foram escritos para crianças, eram contados em reuniões sociais e os textos originais continham violência e eram bem indecentes como por exemplo, Chapeuzinho Vermelho, que em uma das versões medievais, antes de pular na cama com o lobo, faz um strip-tease.

Contos de Fada : Chapeuzinho Vermelho
Contos de Fada: Chapeuzinho Vermelho/ Crédito: Wikimedia Commons

Adultério, incesto, canibalismo e mortes hediondas recheavam às páginas na época. Histórias em que uma menina e sua avó são devoradas por um lobo? Uma jovem que é obrigada a passar a sua vida trancafiada em uma torre? Uma história não surge do nada, elas sempre irão refletir contextos sociais, ideias e pensamentos de um momento da sociedade.

Naquele período para ilustrar, crianças eram abandonadas nas florestas por seus pais por não terem condições de alimenta-las. Crianças perdidas nas florestas? Acertou quem pensou em João e Maria.

Por volta do século XVII, os contos de fada começam a ganhar contornos moralizantes com o francês Charles Perrault e a publicação da obra em 1697, “Histórias ou Contos do Tempo Passado com suas moralidades”, mais conhecida como “os Contos da Mamãe Gansa”, arquétipo da mulher do campo, contadora de histórias.  Importante lembrar que foi nesse século que as crianças passaram a ser vistas como crianças e não miniatura de adultos.

Os Irmãos Grimm e a ascensão dos contos

Por volta do século XIX, com Irmãos Grimm, os contos de fada foram suavizados, reunindo fábulas, contos populares e em 1812 publicam “Contos para a infância e para o lar” arrebatando gerações.

Temos que ressaltar o contexto dessa adaptação, a ascensão da classe burguesa, seus valores ideológicos embutidos e a propagação e manutenção desses valores para seus herdeiros.

É nesse momento que a literatura infantil ganha um público especifico com propósitos educativos. Há uma compartimentação do indivíduo, homens seguem para o trabalho, para o ambiente social e a mulher ganha o símbolo da “rainha do lar” sendo responsável pela organização, cuidados da casa, educação das crianças, o local onde o mundo mágico – conservador – ganha forma e sentidos para o público infantil.

A saga do herói

A jornada começa com uma personagem principal, um herói(heroína) que passa por muitos obstáculos até conseguir a sua autorrealização, seja ela amorosa ou não. A relação do bem versus o mal e a recompensa por ter se mantido no caminho do bem.

Nos contos de fada, o processo que o herói passa é da aprendizagem, por não se corromper e por se comportar bem tendo uma recompensa no final, como por exemplo em a Gata Borralheira, que sai da obscura pobreza e ascende socialmente casando com um príncipe.

Gata borralheira não combate o mal com mal, é bela e humilde, vive em um ambiente de injustiça e por suas virtudes recebe como recompensa o casamento (religiosidade) e ascensão social (casa com um príncipe).

Contraposição do bem e do mal, bravo guerreiro com seus feitos exaltados, o seu amadurecimento, obediência, a beleza, a voz doce, virtudes, luz própria, a passividade da figura feminina, inocência etc.

O famoso “Era uma vez” propõe espaço e tempo indeterminados, que é comum a todos os tempos, valores que não datados e quem os seguir terá a garantia do “felizes para sempre”.

Os contos de fada e a modernidade

Cinderela representa a história padrão de superação, uma metáfora de esperança de uma reviravolta na vida. Relato onde fracos e oprimidos se identificam. Gostamos de torcer para os fracos e para falar a verdade, quem nunca odiou as suas irmãs malvadas?

Os contos de fada, devidamente reescritos ainda vivem em nossa cultura popular, sejam na literatura ou mesmo no cinema e nutrem o imaginário infantil e adulto na contemporaneidade.

Moldam expectativas e transmitem valores de uma determinada época, releituras como “Branca de Neve e o Caçador”, “A Garota da Capa Vermelha” e o live-action de “A Bela e a Fera” ainda lotam cinemas.

Indo além do bem e do mal nietzschinao, todos nós temos uma pouco de princesa e rainha má que habitam dentro de nós, e quem nunca se deliciou com um conto de fadas que atire a primeira pedra.

Para saber mais: Os Irmãos Grimm

Irmãos Grimm – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

Teatro dos Contos de Fada ( Faeri Tale Theatre) – exibido na Tv Cultura na década de 80 no Brasil

Autor: carinafeitosa

Estudante de Jornalismo, tataraneta da poeira cósmica, devota de Nossa Senhora da Cinefilia e pensadora itinerante

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